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As lutas estão de volta

     As lutas estão de volta. Nunca pararam de verdade, apenas estiveram segregadas às emissoras sem audiência que fazem de tudo para chamar a atenção, entregar o grotesco, o bizarro e o violento como de interesse popular e entretenimento esperado pelas massas. Também estavam nos canais por assinatura de pouca visibilidade, em extensão de cenas, cenários e personagens de violência, dos documentários à ficção, das imagens caseiras a registros de câmeras públicas. As lutas estão de volta, mais violência como diversão.
     As lutas estavam na internet e nas redes sociais. Divulgadas e comentadas nas comunidades associadas a esportes, lutas e diversões. Lutas e diversões. Fragmentos de personagens perversas e grotescas são dublados e legendados para exaltar o retorno das lutas, com lamentações de quem perdeu a oportunidade e não vai assistir nas arenas públicas, contentando-se com edições da internet ou nos canais sem audiência. As lutas voltaram pela Internet e pela televisão e os fragmentos não passaram de um truque para dizer que, mesmo sem o apelo da propaganda, não havia mais ingressos e a saída seria assistir pela televisão e ver as edições na Internet.
     Mas, agora, as lutas estão de volta à televisão com larga presença em todas as camadas sociais. O narrador Galvão Bueno, referência na condução de esportes coletivos e fórmula um, convocado para narrar a luta de um dos lutadores brasileiros pelo título mundial, disse que o Brasil tinha um novo ídolo, Cigano, assim como há novos ídolos, Anderson Silva e Minotauro – todos lutadores.
     Somos um país de batalhadores, esforçados e lutadores. Galvão só se engana com o novo. Na Internet, inúmeros vídeos contam, pancada a pancada, luta a luta, que são acompanhadas, vistas, revistas, colocadas nas redes por adolescentes de todo o país. Uma legião de crianças e adolescentes impressionados com a força e o sucesso dos lutadores brasileiros. As lutas estão de volta para divulgar bebidas ou as bebidas apoiam as lutas porque somos todos lutadores vencedores?
     As lutas estão de volta: mais violentas, com braços e pernas, hematomas, mais sangue – e o país tem novos ídolos. De repente, qualquer um pula das conversas repetidas e insistentes sobre futebol e pergunta: “viu à luta? Foi massacre. O cara bate, bate muito, bate forte. Emocionante.” As lutas estão de volta e, com as lutas, os massacres emocionantes. Os massacres emocionantes, os massacres consentidos como lazer, como entretenimento, como diversão. Os massacres autorizados.
     As ações para pacificar as cidades onde o crime organizado mantém a violência como forma de poder. Os pedidos para as torcidas organizadas cessarem a violência – antes, durante e depois – nos jogos de futebol. As iniciativas para conter a violência de alunos contra professores, de alunos contra alunos. Enfim, as tantas mobilizações para tornar a sociedade menos violenta nos espaços públicos e privados, dissolvem-se porque as lutas estão de volta, como entretenimento, mais violentas e explícitas, emocionantes.
     Quem são os patronos e os patrocinadores que tornaram possível as lutas voltarem com tanta forma, em todos os lugares da mídia e disponível aos adolescentes e crianças? Serão as mesmas pessoas, empresas e mídias a quem confiamos crédito em suas ações, as mesmas que aparecem envolvidas em promover a amizade, em apoiar a educação, estimular o desporto? É possível, neste caso, apoiar uma coisa e outra e considerar que as lutas estão de volta, mas elas são parte do que o povo quer como entretenimento?
     Que incrível saber que, com a volta das lutas, em todo o país, centenas de academias, ringues e clubes de luta também voltaram, reapareceram para fabricar novos ídolos para o país. E lançar a esperança de campeões e milionários, novos astros, novas celebridades. Ainda hoje há entidades que pedem para desligar a televisão por um dia ou para boicotar determinados programas. As lutas estão de volta pela Internet que leva à televisão que leva à Internet e se multiplicam em formas, lugares, audiências. Impensável propor desligar a Internet. As lutas voltaram e estão em todos os lugares.
     De volta, embora sempre presentes, à espera de um novo modelo. A violência como entretenimento em mais uma nova maneira de aparecer. É isso que está de volta com as lutas, a permissão para aceitar a violência como prática de lazer. E, com isso, a eterna preparação da cultura de gladiadores que se colocam acima dos homens, em parte feras, em parte humanóides idolatrados para os consumos.

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André Resende é escritor, ensaísta. Atua como psicanalista e é membro da Intersecção Psicanalítica do Brasil, IPB. Livros publicados: Mundo Enquadrado (ensaios), Amor Vário (romance), Quem disse sim (poesia), Maçã Caramelada (teatro), Quem sou eu (infantil), Uma coisa de cada vez (contos), Birdboy (romance), Zômis - em torno dos masculinos (ensaios).
E-mail: andre@odisseu.com.br

 
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