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No começo do mês, assistimos, bestializados, o anúncio pomposo pela imprensa
de que a Oi, a big telefônica brasileira, vendera parte maior de suas
operações a uma companhia portuguesa. Se houvesse rigor ao relembrar a
estratégia bilionária que assegurou à Telemar a compra da Brasil Telecom
e criar a Oi com recursos públicos, seria dito que deveria haver no acordo
um dispositivo anunciando que os recursos públicos foram transferidos
para dar ao país uma companhia telefônica forte com capital nacional.
Na essência do modelo de política de subsídios e participações adotada
pelo BNDES, as Bigs nacionais nascem para projetar-se internacionalmente,
adquirindo empresas com atuação em outros países. Além disso, é sabido
que o atual governo trata telefonia como estratégia de segurança nacional.
Enfim, algo ficou pendente aí.
Mais uma vez, lemos, bestializados, o anúncio de que a TAM, a maior companhia
aérea nacional, vende parte de suas operações a uma companhia chilena
com uma operação total três vezes menor que a sua. Como as leis nacionais
põem limites à presença de capital externo em companhias aéreas nacionais,
as operações continuarão separadas, mas será controlada pela Lan Chile
em uma holding com propriedade óbvia chamada Latam, alusão a América Latima
com o nome da TAM, referência nacional, escrito ao final. Que estava acontecendo
e nós não sabíamos? Do ponto de vista comum aos negócios, salvo algum
erro e correção, o mais óbvio seria a TAM adquirir a Lan Chile e quem
sabe mais algumas outras do continente e manter-se em rota de expansão,
se não global, ao menos continental.
O Brasil, a cada momento, passou a anunciar sua grandeza, criando um bolsão
de esperança jamais imaginado. Na imprensa, anuncia-se que nos tornamos
uma sociedade de classe média, esquecendo de contar que até um dia desses
a classe média brasileira cruzava o mês com um terço de seu orçamento
pendente e, agora, 7 em cada 10 brasileiros têm dívidas no cartão de crédito
e terão de parcelar, saindo, por um tempo, desse sistema de consumo. No
entanto, somos o maior produtor de diversos itens extrativistas, em agropecuária.
Já somos o segundo maior produtor de transgênicos do mundo. Enfim, voltamos
a espalhar para nós mesmos que somos os maiores, potencialmente ricos.
Bolívia não quer negociar com o Brasil? Pois no Maranhão há gás suficiente
para cobrir toda a operação dos brasileiros com bolivianos. E por aí não
para.
No entanto, a Oi foi para os portugueses, a TAM para os chilenos. O setor
de fármacos e medicamentos assiste a ação das empresas multinacionais
adquirindo as plantas industriais nacionais montadas para a produção de
genéricos. O governo federal é sensível e compreende que é necessário
a um país ter soberania sobre medicamentos, na produção e na pesquisa.
Só não combina com seus órgãos de fomento que é papel do Estado apoiar,
também, setores que garantem soberania ao país. Um dos setores á deriva,
ainda, é biotecnologia. Em vários lugares da imprensa, é possível ler
que gente como Bill Gates comenta que a biotecnologia exercerá no Século
XXI o que a programação de computadores foi para o Século XX. Na primeira
e real Política Industrial do governo federal, biotecnologia entrara como
setor portador de futuro. Criou-se um fórum da cadeira produtiva de biotecnologia.
As gigantes internacionais estão empenhadas em pesquisas, desenvolvimento
e inovação na área de biotecnologia. Quase todos os países têm programas
avançados para entender ou integrar-se à questão que promete ser o centro
da atenção neste século. E, quando traçam planos, incluem o Brasil como
o país que reúne decisivas novas fontes de inovação. Nas universidades
brasileiras, o modelo de incubadora está à espera de modernização empresarial,
as pesquisas suplicam por supercomputadores, o modelo em si espera pela
introdução de subsídios, desoneração e fomento dos órgãos federais associado
a uma legislação flexível e estável para a participação de investidores
em projetos de risco.
Por enquanto, quem mais aposta em projetos biotecnológicos brasileiros
são investidores estrangeiros associados a conglomerados ou a fundos de
investimentos incentivados por recursos estatais. Por enquanto, e esperamos
que isso venha mudar em breve, nossos órgãos de fomento e as leis de incentivo
a pesquisas, produção e inovação não se interessam por ativos intangíveis,
simbólicos ou portadores de futuro. Mas, como se pode ver, a crença de
que o apoio a quem tem muitos bens ajudará a criar empresas nacionais
fortes e suficientemente grandes para expandir-se pelo mundo tem funcionado,
apenas, quando a um passo da maturidade de expansão, ser ocupada por capital
estrangeiro. Não deve ser verdade que o BNDES se expôs tanto internacionalmente
para ver essas coisas acontecerem com as empresas brasileiras.
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