|
A Fundação Getúlio Vargas, em estudo, anuncia que a falta de um plano
abrangente e eficiente de educação coloca o país entre os dez mais desiguais
do mundo. É uma colocação imperdoável para o país, que está entre as dez
maiores economias do mundo. De certa forma, mostra uma contradição: como
se pode ser uma das dez maiores economias do mundo ao mesmo tempo em que
é um dos dez piores Estados distribuidores do mundo?
A simplória tese de que há uma herança maldita a corrigir não basta. Há
outra tese relevante que merece atenção à medida que se aproxima o cenário
de um novo governo. Para mim não existe continuidade. O atual governo
encapou e diferenciou-se de ideias, planos e metas do anterior, mas, em
essência, o mandatário é outro. A tese relevante é que o Estado brasileiro
é, apenas, um Estado arrecadador. Move-se, exclusivamente, aí, para arrecadar.
Não é um Estado prestador de serviços. Existe para arrecadar, arrecadar,
arrecadar. E gastar consigo, com suas entranhas, com quem está no poder.
Não é verdade? Quem pode dizer diferente? Tornou-se comum assinalar que
o que é, o que acontece, é e acontece porque sempre foi e sempre aconteceu,
mas um dos propósitos da alternância democrática é manter mudando alguma
coisa. E uma coisa que precisa mudar é a forma do Estado brasileiro existir,
como arrecadador, perante a sociedade, e como grande captador de capital,
no mercado financeiro, para pagar suas contas.
Há décadas a sociedade brasileira assiste ao espetáculo da República vertido
em dois parâmetros. Primeiro vamos crescer e depois dividir o bolo. Segundo
vamos ampliar o Estado e aí poderemos prestar os serviços que a sociedade
espera. Pois bem. Eis aí o país oscilando, para cima e para baixo, sempre
próximo do grupo das dez economias do mundo. Eis aí um Estado ampliado,
enraizado, distribuído em três poderes, organizado em três camadas administrativas,
com representação pública nas esferas nacional, estadual e municipal.
Recentemente, ao comentar a exigência do mercado por profissionais que
estão despreparados ou, simplesmente, não existem no país, houve quem
anunciasse que a escola brasileira tem formado profissionais sim: são
as empresas que estão rigorosas. Dá para pensar assim, se quiser desorganizar
o conhecimento. Ou seja, enquanto em outros países o nível de escolarização
é alto e as empresas, nacionais ou estrangeiras, tentam emparelhar com
profissionais em condições de trabalho iguais, as empresas no Brasil devem
ser tolerantes e aceitar profissionais aquém dos padrões esperados e inventar
profissionais que não existem.
O cenário do ensino superior, hoje, está voltado à loteria dos concursos
públicos. Nenhum Estado pode garantir empregos para todos, atestavam os
cientistas políticos dos anos 80 do Século XX. Nada mudou. Ao contrário.
Nenhum Estado pode empregar toda a população. Mas é possível, ainda, tentar
apoiar o crescimento do mercado e torná-lo capaz de criar empregos sustentáveis
e de longo prazo. E criar padrões que permitam aos trabalhadores usufruir
dos serviços públicos oferecidos por um Estado voltado à prestação de
serviços. Não um Estado verdadeiramente preparado para arrecadar, com
o mesmíssimo discurso falso de que um Estado rico pode ajudar a sociedade.
Se o quesito de apreciação do Estado é a educação, o melhor que se pode
dizer é que as implementações e reformas são lentas. Essa lentidão, no
curso de uma década, acaba afastando crianças e adolescentes da escola.
De escolas, aliás, inacreditavelmente ruins, em todos os aspectos. Ambientes
temporários, para onde se vai logo querendo sair. Ao fim, temos isso:
um em cada cinco brasileiros é analfabeto funcional. A taxa de evolução,
por faixa etária, para tirar o país do analfabetismo, ano a ano, é inexpressiva.
Com dez ou mais anos, entre 2007 e 2008, menos de 0,3%. Na faixa dos 15
anos, mesmo período, 1,8%.
Os especialistas e movimentos, como o Todos pela Educação, têm alertado
as autoridades e gestores de educação no país que o modelo de ação no
ensino básico e fundamental tem de mudar agora, imediatamente. À medida
que crianças e adultos avançam para a vida adulta, tornando-se analfabetos
funcionais, as chances e oportunidades de trabalho diminuem. Há dois anos
tive acesso ao estudo do economista Roberto Cavalcanti e da socióloga
Sônia Rocha. Uma série histórica, entre os anos 1970 e 1980, mostrara
que, quanto mais tempo de escola e mais etapas escolares vencidas, mais
chances os brasileiros têm de uma vida adulta estável, com emprego. Uma
mágica que ocorre entre sociedade e mercado, acreditem ou não os que só
acreditam na força do Estado.
O setor de fármacos e medicamentos, conforme podemos ler em artigos do
empreendedor brasileiro Nelson Torres Duarte – um dos fundadores da Associação
dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais, ALANAC –, desde os anos 60 do
Século XX é um dos mais importantes formadores empregadores de nível universitário
e técnico de nível médio especializado no Brasil. Em quarenta anos, assistimos
a uma renovação de pesquisas no setor. Em parte, porque se fez necessária
a integração das escolas com o mercado. Em parte, porque as Universidades
foram buscar, fora, em parceria com empresas, padrões para tornar o país
capaz de competir de igual para igual com os vinte países mais atuantes,
organizados e prósperos.
O Estado brasileiro, a verdade é essa, atuou com indiferença e distância,
sempre preocupado com o quanto deixaria de arrecadar. E nada mudou. Em
qualquer reunião está lá, com ar de poder moderador-inquisidor, um representante
do Ministério da Fazenda. Para dizer que o Estado não pode parar de arrecadar.
Mas, em certos casos, a questão não é arrecadação-ão-ão. É educação, educação,
educação.
|