Quarta-feira, 15 de setembro de 2010
 
Educação, educação, educação


A Fundação Getúlio Vargas, em estudo, anuncia que a falta de um plano abrangente e eficiente de educação coloca o país entre os dez mais desiguais do mundo. É uma colocação imperdoável para o país, que está entre as dez maiores economias do mundo. De certa forma, mostra uma contradição: como se pode ser uma das dez maiores economias do mundo ao mesmo tempo em que é um dos dez piores Estados distribuidores do mundo?

A simplória tese de que há uma herança maldita a corrigir não basta. Há outra tese relevante que merece atenção à medida que se aproxima o cenário de um novo governo. Para mim não existe continuidade. O atual governo encapou e diferenciou-se de ideias, planos e metas do anterior, mas, em essência, o mandatário é outro. A tese relevante é que o Estado brasileiro é, apenas, um Estado arrecadador. Move-se, exclusivamente, aí, para arrecadar. Não é um Estado prestador de serviços. Existe para arrecadar, arrecadar, arrecadar. E gastar consigo, com suas entranhas, com quem está no poder.

Não é verdade? Quem pode dizer diferente? Tornou-se comum assinalar que o que é, o que acontece, é e acontece porque sempre foi e sempre aconteceu, mas um dos propósitos da alternância democrática é manter mudando alguma coisa. E uma coisa que precisa mudar é a forma do Estado brasileiro existir, como arrecadador, perante a sociedade, e como grande captador de capital, no mercado financeiro, para pagar suas contas.

Há décadas a sociedade brasileira assiste ao espetáculo da República vertido em dois parâmetros. Primeiro vamos crescer e depois dividir o bolo. Segundo vamos ampliar o Estado e aí poderemos prestar os serviços que a sociedade espera. Pois bem. Eis aí o país oscilando, para cima e para baixo, sempre próximo do grupo das dez economias do mundo. Eis aí um Estado ampliado, enraizado, distribuído em três poderes, organizado em três camadas administrativas, com representação pública nas esferas nacional, estadual e municipal.

Recentemente, ao comentar a exigência do mercado por profissionais que estão despreparados ou, simplesmente, não existem no país, houve quem anunciasse que a escola brasileira tem formado profissionais sim: são as empresas que estão rigorosas. Dá para pensar assim, se quiser desorganizar o conhecimento. Ou seja, enquanto em outros países o nível de escolarização é alto e as empresas, nacionais ou estrangeiras, tentam emparelhar com profissionais em condições de trabalho iguais, as empresas no Brasil devem ser tolerantes e aceitar profissionais aquém dos padrões esperados e inventar profissionais que não existem.

O cenário do ensino superior, hoje, está voltado à loteria dos concursos públicos. Nenhum Estado pode garantir empregos para todos, atestavam os cientistas políticos dos anos 80 do Século XX. Nada mudou. Ao contrário. Nenhum Estado pode empregar toda a população. Mas é possível, ainda, tentar apoiar o crescimento do mercado e torná-lo capaz de criar empregos sustentáveis e de longo prazo. E criar padrões que permitam aos trabalhadores usufruir dos serviços públicos oferecidos por um Estado voltado à prestação de serviços. Não um Estado verdadeiramente preparado para arrecadar, com o mesmíssimo discurso falso de que um Estado rico pode ajudar a sociedade.

Se o quesito de apreciação do Estado é a educação, o melhor que se pode dizer é que as implementações e reformas são lentas. Essa lentidão, no curso de uma década, acaba afastando crianças e adolescentes da escola. De escolas, aliás, inacreditavelmente ruins, em todos os aspectos. Ambientes temporários, para onde se vai logo querendo sair. Ao fim, temos isso: um em cada cinco brasileiros é analfabeto funcional. A taxa de evolução, por faixa etária, para tirar o país do analfabetismo, ano a ano, é inexpressiva. Com dez ou mais anos, entre 2007 e 2008, menos de 0,3%. Na faixa dos 15 anos, mesmo período, 1,8%.

Os especialistas e movimentos, como o Todos pela Educação, têm alertado as autoridades e gestores de educação no país que o modelo de ação no ensino básico e fundamental tem de mudar agora, imediatamente. À medida que crianças e adultos avançam para a vida adulta, tornando-se analfabetos funcionais, as chances e oportunidades de trabalho diminuem. Há dois anos tive acesso ao estudo do economista Roberto Cavalcanti e da socióloga Sônia Rocha. Uma série histórica, entre os anos 1970 e 1980, mostrara que, quanto mais tempo de escola e mais etapas escolares vencidas, mais chances os brasileiros têm de uma vida adulta estável, com emprego. Uma mágica que ocorre entre sociedade e mercado, acreditem ou não os que só acreditam na força do Estado.

O setor de fármacos e medicamentos, conforme podemos ler em artigos do empreendedor brasileiro Nelson Torres Duarte – um dos fundadores da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais, ALANAC –, desde os anos 60 do Século XX é um dos mais importantes formadores empregadores de nível universitário e técnico de nível médio especializado no Brasil. Em quarenta anos, assistimos a uma renovação de pesquisas no setor. Em parte, porque se fez necessária a integração das escolas com o mercado. Em parte, porque as Universidades foram buscar, fora, em parceria com empresas, padrões para tornar o país capaz de competir de igual para igual com os vinte países mais atuantes, organizados e prósperos.

O Estado brasileiro, a verdade é essa, atuou com indiferença e distância, sempre preocupado com o quanto deixaria de arrecadar. E nada mudou. Em qualquer reunião está lá, com ar de poder moderador-inquisidor, um representante do Ministério da Fazenda. Para dizer que o Estado não pode parar de arrecadar. Mas, em certos casos, a questão não é arrecadação-ão-ão. É educação, educação, educação.

 
*Josimar Henrique é Presidente da Hebron Farmacêutica - www.hebron.com.br e Diretor Temático de Assuntos Parlamentares da Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades - ABIFINA - www.abifina.org.br.
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