Quarta-feira, 27 de outubro de 2010
 
Indústria farmacêutica nacional - o desmonte segue

Por esses dias, mais uma indústria farmacêutica nacional foi vendida a um conglomerado internacional. Depois de uma longa negociação a Pfizer (maior conglomerado farmacêutico mundial - de capital norte-americano - comprou a goiana Teuto produtora de genéricos). Quando uma empresa de projeção internacional vem a um país e compra uma das empresas nacionais, o que deve ser comemorado? Nada? Em um país como o Brasil, nada. Talvez um país menor se orgulhe de atrair para seu território empresas maiores que, na aparência, prometem trazer melhoria na qualidade dos produtos e tecnologia. Ou talvez a compra faça parte de uma estratégia de desmonte da indústria nacional, supressão de tecnologias que seriam conflitivas, ocupar espaço em menor espaço de tempo.

Se, na situação montada, trata-se de uma indústria farmacêutica, por a mais b se sabe que o país perde autonomia, pois é comum os Estados tratarem a indústria farmacêutica como fator decisivo na composição da soberania nacional. E por soberania nacional entenda-se, aqui, os aspectos econômicos, claro, mas também os aspectos tecnológicos e de bem-estar dos cidadãos. O Brasil não vê, mas a cada dia se desmonta a indústria farmacêutica nacional (para não falar da indústria como um todo) e, assim, um pedaço da soberania e autonomia do país.

A fórmula para desmontar a indústria farmacêutica nacional é simples, por um lado, e bem preparada, por outro. Por um lado, não se pode dizer que a indústria farmacêutica nacional não foi contemplada com alguma lembrança do Estado, tampouco que um de seus pilares de pesquisa, a biotecnologia, não esteja entre as tecnologias consideradas de segurança pelo país. Mas, se no papel estava tudo bonito e, pelo menos, representava um reconhecimento histórico, na prática, os canais de incentivo e apoio financeiro estão fechados ou empenhados em não destacar qualquer deferência. Por outro lado, há todo um empecilho burocrático, mais rigoroso que em sociedades complexas e monitoradas, como a europeia e americana, para que o resultado de pesquisas brasileiras não saia do papel e se transforme em medicamentos. Sufocadas pela espera, e sem recursos, as indústrias nacionais se desmotam, repassando seus ativos e esperanças a corporações internacionais.

Com o tempo, percebe-se que algumas informações se repetem como discurso, justamente porque nunca conseguem sair do discurso. A sorte é que se aprende que uma parte do que se repete nunca muda, mas outra parte muda sempre, à medida que é repetida. Converso quase todo dia com pesquisadores no campo da famacologia e compartilho com eles a ansiedade diante dos resultados e descobertas, frente ao imobilismo que logo virá, pela necessidade de investimento que não vem. É sempre difícil explicar por que a indústria farmacêutica nacional não consegue investir em pesquisa e na produção de novos medicamentos e fármacos. Estabeleceu-se dizer que a resistência é histórica e não há pesquisa nem produção porque, simplesmente, a indústria farmacêutica nacional não quer.

Antes fosse assim, e apenas. Tive oportunidade de citar estudos que apontam a carga tributária brasileira como o principal fator de inibição de pesquisa, desenvolvimento e inovação no país. E não seria estranho, nem fora de série, se a isso se some a impossibilidade de criar bases competitivas internacionais. Para ficar atualizado com as bases históricas que nunca param. Por exemplo, nem mesmo começamos um trabalho contínuo e profícuo com os biotecnológicos nacionais, e os desafios implícitos aí para assistência e proteção à saúde, e já o mundo fala, como realidade prática em processo de pesquisa avançada, de patógenos sintéticos em laboratórios. Quem quer que seja pesquisador na área de fármacos no Brasil sabe avaliar o que é sentir-se à margem, por fora e correndo atrás de uma atualização que nunca parece precisa.

Isso pode ter um fim. Nos próximos anos, há espaço suficiente para uma agenda diferenciada para o setor farmacêutico nacional. Houve sinais oportunos de que a questão farmacêutica não ficará em palavras de ordem, nem se bastará em uma política de distribuição de medicamentos genéricos. Para que o desmonte da indústria farmacêutica nacional não persista e para que o setor possa interagir com pesquisadores nacionais e criar um campo de excelência e interação com resultados práticos, quem quer que ocupe o governo deve apoiar a estabilidade do setor, com subsídios, fomentos e incentivos financeiros e fiscais que sejam focados e colados a um programa de pesquisa, fortalecendo a cadeia produtiva de fármacos e medicamentos, as pesquisas nacionais e consolidando, enfim, o setor farmacêutico como estratégico à soberania nacional.

Se não fizermos isso já e agora, iremos lamentar muito em breve as consequências de não termos dado a atenção que esses brados merecem.

 
*Josimar Henrique é Presidente da Hebron Farmacêutica - www.hebron.com.br e Diretor Temático de Assuntos Parlamentares da Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades - ABIFINA - www.abifina.org.br.
 E-mail: presidencia@hebron.com.br.