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Nas primeiras luzes do governo Lula, ainda quando o atual governador de
Pernambuco, Eduardo Campos, era Ministro de Ciência e Tecnologia, participei
de um grupo de industriais e pesquisadores que tinha por objetivo incentivar
a criação de uma secretaria de fármacos e medicamentos dentro do MCT.
A iniciativa não andou.
Mas vale a pena relembrar aquele momento histórico do país, para depois
introduzir uma proposta. Relembro que era o momento da Política Industrial,
com o setor de fármacos e medicamentos entre as quatro bases do programa.
Também da Lei de Inovação, primeira tentativa de uma cultura de patente
no país.
Ainda houve uma lei, chamada de Lei do Bem. O objetivo era fazer correções
práticas em auxílio do programa de política industrial e da Lei de Inovação.
Com acréscimo de benefícios a setores que não foram contemplados com a
esperança de financiamento através dos órgãos de fomento ligados ao Estado
brasileiro.
Quem tenha vivido aquele momento histórico terá o que contar. Na Lei do
Bem ainda havia um propósito de atrair para a iniciativa privada os pesquisadores
de Universidades que pudessem oferecer às empresas modelos e produtos
com algum grau de inovação, pois, como sabemos, inovação é educação aplicada.
Ou: ciência e tecnologia.
Daqui a pouco faz uma década. O tempo passa rápido. Tão rápido que o programa
de política industrial para o setor de fármacos e medicamentos praticamente
virou água. A Lei de Inovação não trouxe nada de relevante ao país em
um curto espaço de tempo como se previra. E a Lei do Bem não foi muito
mais distante do que retomar os benefícios a setores que ficaram fora
de política industrial.
As chances que um momento como aquele retome são mínimas. Contudo, seguimos,
é verdade, seguimos. Hoje, há no Ministério da Saúde uma diretoria de
ciência e tecnologia. Sempre que mantenho contato com as pessoas de lá,
me pergunto se não haveria uma oportunidade de fazê-la atuar como a imaginada,
antes, para o MCT.
Então, pensei se não haverá espaço para uma Lei de Fármacos no Brasil.
Com um objetivo bem simples: aproximarmo-nos do modelo indiano que tanto
bem trouxe para aquele país. Como disse em outro artigo, os indianos compreenderam
que não podiam estar mercê do suprimento de matéria-prima alheio. Era
um risco que o Brasil vive, mas os indianos não quiseram viver.
Os indianos, para sair desse desconforto, desenvolveram uma indústria
de intermediários químicos, montaram a estrutura da produção de farmoquícos
e, por fim dos genéricos. Com os intermediários químicos e os farmoquímicos,
pode-se fazer qualquer coisa: genérico, pesquisa, inovação tecnológica,
melhoramento e, por fim, patentes, como já tive oportunidade de afirmar
em artigo anterior.
O Brasil tem uma referência a considerar. O MCT, através de sua Secretaria
de Política de Informática, administra os recursos investidos em pesquisa,
desenvolvimento e inovação de tecnologia da informação no país. Estudos
recentes do MCT/SEPIN mostram que a Lei de Informática ajudou a consolidação
de uma indústria de software nacional.
Hoje, há 108 Centros de Aplicação em Tecnologia da Informação,
CATIs, no país. 60% deles em plena atividade. O modelo é simples: as empresas
deduzem de seus tributos federais 9% e destinando-os a PDI, através dos
CATIS. Com isso, foi possível criar produtos made in Brasil e
consolidar um mercado superior a 15 bilhões de reais.
Nossa proposta é bem simples e conta com apoio de industriais, pesquisadores
e gestores de saúde no país. Aprender o que melhor se fez com a Lei de
Informática e implantar o modelo como Lei de Fármacos. Tal como a outra,
as empresas farmacêuticas deduziriam 9% de seus tributos federais para
pesquisas em centros de aplicação tecnológica em fármacos.
Por esses dias, mais uma grande empresa de genéricos e produtos similares
com capital nacional será transferida para outra multinacional. Para quem
está comprando o mercado está perfeito: maduro, em evolução e desprotegido
de uma política de Estado para financiar as empresas nacionais. Em um
ambiente desses, é só transferir matéria-prima.
A Lei de Fármacos seria gerida pelo Ministério da Saúde, através de sua
diretoria de ciência e tecnologia, quem sabe, focada em administrar a
relação indutores e induzidos e coordenar a destinação dos recursos oriundos
da dedução de IRPJ em PDI, através de CATFs, associados a Universidades
ou livre-iniciativas.
Uma proposta para o próximo cenário político que nascerá em 2011. Naturalmente,
não esperamos que as propostas associadas á política industrial retomem,
até porque os discursos não mostram nem sinal de interesse na questão.
De alguns, conhecemos bem qual são o modelo e a forma de tratar. Mas a
indústria farmacêutica nacional insistirá na questão.
Em pelo menos uma questão, melhor dizer: a de que é necessária uma política
de Estado para financiamento em PDI de fármacos made in Brasil.
Uma vez que política assim, por repetição de ações atuais, possa não vir,
pensemos na idéia da Lei de Fármacos. Com um modelo interno de onde se
possa melhorar. E outro externo, como inspiração de propósito.
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